Limites e possibilidades na clínica com a psicose*

Atualizado: Mar 6


"Limites e possibilidades na clínica com a psicose" foi publicado em 2002 na Revista de Psicanálise Espaço Moebius, volume 10


Agradeço o convite para participar, mais uma vez, da Jornada do Espaço Moebius, sempre bastante instigantes. O tema desta mesa redonda, “Nos limites da psicanálise”, chega num momento muito oportuno pois tenho estado bastante inquieta a propósito de questões surgidas na clínica com a psicose, justamente em relação ao que lhe faz limite e ao que é possível ser aportado pela psicanálise.

No que diz respeito à neurose, as teorizações e os marcos diferenciais teóricos são abundantes e inúmeras são as remissões à clínica. Em relação à psicose, parece-nos, as referências diretas à clínica são bem mais parcimoniosas. Nesta perspectiva, este texto se impõe a mim como uma tentativa de articular alguns impasses. Como observa Sílvia Disitzer: “No caso da psicose o que se percebe na clínica é que o analista é colocado de saída em permanente confronto com seu ato. Talvez o desafio que a psicose coloca para a psicanálise tenha a ver com este ponto de partida obrigatório para que possamos falar em tratamento analítico - o ato - e que é também um ponto de permanente passagem para o avanço da investigação clínica e da elaboração teórica” .


Antes de tentar articular alguns pontos, gostaria de levantar uma questão. Acho que seria um momento e um local oportunos para nos perguntarmos se um atendimento exclusivamente psicanalítico é suficiente em relação à alguns casos de psicose. Penso particularmente em pessoas muito comprometidas, às vezes, mas não necessariamente, com longas carreiras de internamentos.


Na literatura psicanalítica à qual tenho tido acesso venho observando referências apenas ao trabalho analítico; nos atendimentos em caráter particular não há observações quanto à participação de outros profissionais, exceto ao psiquiatra algumas vezes, e mesmo naqueles que dão testemunho de uma prática institucional, quase não se fala de um trabalho conjunto, que habitualmente é a norma nestes serviços. Curioso silêncio!


O que para mim tem se colocado, a partir de situações muito específicas que descreverei, é a necessidade de realizar um trabalho em equipe, com a associação de profissionais que possam realizar atendimentos ligados à área artística (arteterapia ou musicoterapia), acompanhamento terapêutico e atendimento familiar.


Os casos a que me refiro são os de pessoas nas quais a estrutura psicótica se apresenta de forma devastadora, com uma organização de mundo caótica, que gera uma convivência social particularmente difícil.


Antônio Quinet diz que “falar da psicose ao invés de as psicoses é acentuar a psicose como uma estrutura clínica, uma estrutura que se revela no dizer do sujeito e que corresponde a um modo particular de articulação dos registros do real, simbólico e imaginário” (2). O que desenvolverei a seguir é uma tentativa de pensar a articulação dos três registros a partir de duas situações concernentes à psicose.


Refletindo sobre as manifestações alucinatórias, chamou minha atenção a seguinte frase de Lacan no Seminário 3: “há uma relação estreita entre (...) a Verwerfung e a alucinação” .


Esta observação provocou em mim inúmeras idéias. Uma delas é a de que não parece haver um consenso entre os psicanalistas quanto à questão da presença de fenômenos alucinatórios num dado sujeito. Alguns admitem a possibilidade de um neurótico poder alucinar, no sentido próprio do termo, enquanto outros parecem pensar que a presença de alucinações traduz consequentemente uma estrutura psicótica.


Não cabe no âmbito deste trabalho entrar nesta discussão, mas em função de uma orientação que me é necessária de lidar com os conceitos com um certo rigor, trago a distinção feita por Graciela Brodsky entre alucinações forclusivas e alucinações imaginárias. Para ela, as alucinações forclusivas são conseqüência de um retorno no real de um significante primordialmente rechaçado, enquanto as alucinações imaginárias são “produto da interferência do imaginário entre o simbólico e o real, cujo modelo pode buscar-se nas imagens reais do esquema ótico” (4). Distinção interessante e que parece plena de ressonâncias clínicas, mas aqui me interessa destacar que estarei me referindo a alucinações forclusivas.


Comecei a me questionar sobre esta “relação estreita” entre a Verwerfung e a alucinação. Recorrendo ao Dicionário comentado do alemão de Freud de Luiz Hanns, ocorreram-me articulações que podem ser produtivas.


Em relação ao termo Bejahung, traduzido por afirmação, dois pontos se sobressaíram. O primeiro é que o prefixo be transforma o advérbio ja (sim) em verbo transitivo. Logo afirmação é afirmação de alguma coisa. O segundo ponto é que há no termo alemão um sentido que se perde na tradução para o português e que diz respeito a um duplo movimento afirmativo. No termo Bejahung está explícita a existência de duas ações simultâneas: dizer sim e confirmar.


Paralelamente, em relação à Verwerfung há a colocação de que suas possibilidades de sentido incluem “considerar inútil, não aceitar, descartar, ir adiante perdendo contato com a origem” (5). No termo alemão a noção de eliminação é importante e enfatiza uma resolução definitiva, no sentido de o sujeito livrar-se do material. Importa então destacar que se descarta ou elimina- se algo que teve alguma forma de existência.


Remetendo à clínica, lembramos que as vozes alucinadas não só concernem diretamente ao sujeito, lhe dizem respeito, como também lhe atingem profundamente. O próprio Lacan, no Seminário 3, chama a atenção para a importância do termo “injúria”, colocando-o como essencial na fenomenologia clínica da paranóia.

Se pensarmos a forclusão como a não inscrição ou o não advento ao simbólico de um determinado significante, pode ficar impreciso. Se a conceitualização desta não inscrição permanece vaga, dá margem a que se pense que qualquer significante pode ser forcluído indiferentemente ou de que se pode alucinar qualquer coisa. No entanto, o que a clínica nos evidencia é que o que retorna nas alucinações adquire uma função predominante e afeta bastante o sujeito.


A partir destas colocações, poderíamos pensar que em relação a um determinado significante pode ter havido um primeiro movimento afirmativo, um primeiro “sim”, que não foi confirmado. A posteriori, ou num momento lógico qualquer, esta primeira afirmação viria a ser abolida, configurando-se a forclusão.


Esta forma de articular parece-nos trazer contribuições importantes para a clínica não só no sentido de valorizar devidamente as manifestações alucinatórias, como também pode levar a pensar que o trabalho com os elementos que surgem a partir de uma manifestação alucinatória pode servir para balizar uma suplência que leve a uma estabilização da psicose, que não seja necessariamente delirante. Destaco este “não delirante” a partir da observação feita por Eric Laurent sobre a diferença entre a estabilização delirante e a estabilização psicótica.


Ainda girando em torno destas articulações, trago um fragmento clínico que foi repensado com a introdução destes elementos.


Trata-se de um rapaz, atualmente com 24 anos, que se coloca entre estas situações complicadas de que falava no início e que apresenta sérios problemas desde os 3 anos de idade, que não conseguiu dar outro rumo a sua vida que não o remetesse a uma exclusão. Ele encontra-se internado há 4 anos, sem condições de sair, pois expõe-se a riscos significativos, ameaça a integridade física de seus familiares, sem falar de inúmeras inconveniências cotidianas. Esta pessoa já apresentou um delírio muito rico, bem sistematizado, mas nos últimos anos vem se apresentando extremamente desorganizado, sendo incapaz de responder qualquer pergunta sem sua fala caótica. Transcrevo um trecho de sua fala, escolhida ao acaso, para dar uma ideia: “Apocalipse Now de Hitchcock. Um documento à nação G12...um documento à Dra. Joseni ... Invasão de Dra. Joseni ao G12, a um programa de computador de Andréa, a um programa de computador do hemisfério hungro .... Ao trono de Orestes Quércia, ao cabeçote de Maria Padilha. Entre em contato com o pró- governo atual, novela Escrava Isaura, um documento à Dra. Joseni, ao G12, Nação .... Atinjo G12. Não me atinja com filhos deste livro. Atinja filhos deste livro com Apocalipse now de Hichtcock, a invasão de São Pedro, estaria informada ... Entre em contato com o pró-governo da novela Xica da Silva .... Atinja o G12 com Xica da Silva. Filme ... pró-governo do G12 ... crise de convulsão Apocalipse now de Hichtcock devido a Nelson Fiúza. Invasão de Dra. Joseni a um documento “. Esta fala, muito rica, é incansavelmente repetida, sessão após sessão, sendo muito pouco acessível a intervenções.


Este rapaz também apresenta sérios episódios de agitações, durante os quais fica transtornado, agride pessoas, quebra coisas. Para ele e para sua família tratava-se de crises convulsivas produzidas por sua hipersensibilidade à medicação neuroléptica. Ele próprio nada refere sobre a ocorrência destes episódios e quando o abordo quanto a eles, informada por sua mãe ou pelas pessoas do hospital, responde sistematicamente “é mentira, eu não fiz nada” e volta à sua fala habitual.

Tentando pensar sobre estes episódios, pude ir observando que estes se manifestavam quando ele sentia seu espaço invadido por alguém e em outros momentos me pareciam que eram uma resposta a fenômenos alucinatórios, dos quais ele não fala, mas que me parecem estar presentes com proeminência.


Após muitos meses, ocorreu-me de tomar ao pé da letra sua afirmação “eu não fiz nada”. Da mesma forma que o recalque exerce um poder de atração, me questionava se seria possível pensar que a forclusão também é um mecanismo que se reatualiza, eliminando conteúdos recentes. Assim, funcionaria para ele como se realmente não tivesse feito nada.


Certo dia, depois da sessão, a auxiliar de enfermagem que o acompanhava a meu consultório, se dirige a mim e diz: “Dra. Denise, estou grávida”. Vendo sua reação imediata e sabendo das implicações que questões relativas a gravidez tem para ele, disse a ela que depois conversaríamos e encerrei o contato. Logo após fui chamada à garagem do prédio, onde ele tinha agredido esta moça violentamente e estava agitado. Quando cheguei, ele veio correndo em minha direção, com as mãos amarradas pelo motorista. De volta à sala perguntei o que tinha ocorrido e a causa da agressão. Ele gritava muito exaltado: “não pode, não pode, ela é um homem, não pode estar grávida”. Entre muitas coisas que foram ditas por ele, pude dizer-lhe que era curiosa esta revolta pois ele mesmo, um homem, dizia ser seu corpo uma armadura e que de fato era uma mulher grávida. Quando por fim tranqüilizou-se, ao ir embora, perguntei-lhe se eu poderia confiar nele, orientando que não voltasse a ser amarrado e ele pôde reafirmar o que me havia dito enquanto eu soltava suas mãos: “eu já lhe dei a minha palavra”.


Este episódio foi muito significativo para seu tratamento pois não só foi a primeira vez que eu presenciei sua crise, como também a partir daí estes elementos podem ser evocados sem que ele responda “eu não fiz nada”.


Finalizo com duas reflexões que me ocorreram a partir deste episódio. A primeira é quanto ao papel do analista enquanto uma testemunha particular, uma função a partir da qual as lembranças podem ser evocadas. A segunda questiona se a intervenção proporcionou algum tipo de inscrição desta cena, a partir da qual ele pode vir a elaborar e não apenas agir. Possibilidades que talvez despontem, mas que só sabemos a posteriori, caso não ocorra uma forclusão do analista, como falou-me em contato pessoal Eduardo Vidal.



* Trabalho apresentado na VII Jornada de Psicanálise do Espaço Moebius

Citações

1) Disitzer, Silvia; “Ato e Escrita ou ‘Tratado de Eliminação de Paranóias’ “, in Letra Freudiana, Ato Analítico, Ano XV, n.o 16, Editora Revinter, pg. 93

2) Quinet, Antonio; “Teoria e Clínica da Psicose, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1997,

pg. 3

3) Lacan, Jacques; “O Seminário, Livro 3 : As psicoses”, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, pg.

22 4) Brodsky, Graciela; “Sueño y alucinación” in “Análisis de las alucinaciones”, Editorial Paidós,

pg. 157 5) Hanns, Luiz; “Dicionário comentado do alemão de Freud”, Rio de Janeiro, Imago, !996, pg. 368


Bibliografia

1) Brodsky, Graciela; ‘Sueño y alucinación” in “Análisis de las alucinaciones”, Editorial Paidós,

1995

2) Disitzer, Sílvia; “Ato e Escrita ou ‘Tratado de Eliminação de Paranóias’ “, in Letra Freudiana,

Ato analítico, Ano XV, no 16, Editora Revinter, 1996

3) Hanns, Luiz; “Dicionário comentado do alemão de Freud”, Imago, Rio de Janeiro, 1996

4) Lacan, Jacques; “O Seminário, Livro 3, As psicoses”, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1985

5) Lacan, Jacques; “De una cuestión preliminar a todo tratamiento posible de la psicosis”, in “Escritos”, Siglo Veintiuno Editores, 1975

6) Lanteri-Laura, G.; “Las alucinaciones”, Fondo Editorial de Cultura Económica, México, 1994

7) Léthier, Roland; “La fabrique du Nom-du-Père”, in Revue du Littoral, École Lacanienne de Psychanalyse, no 40, juin de 1994

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